Quem conta uma história?
Uma história não é só sobre o que é contado

Uma história não é só sobre o que é contado, mas também sobre quem a conta. Um filme não é só sobre o que é filmado, mas também sobre quem o filma. Quem conta uma história ou a captura, seja através de imagens, palavras ou pinturas, é uma parte essencial da própria história. O narrador é quem dá o recorte do mundo, oferecendo uma visão, carregando suas ideias.

Recentemente, fui ao Museu de Arte de São Paulo (MASP) e encontrei a seguinte pintura de Arissana Pataxó, intitulada Indígenas em Foco.

Indígenas em Foco

Na pintura, é apresentado um indígena de cocal, numa perspectiva frontal, segurando uma câmera, que obstrui seu rosto, apontada para quem contempla a obra. Quando eu a vi, fiquei alguns bons minutos parado em frente a ela refletindo.

Afinal, os indígenas têm oportunidades de contar suas próprias histórias? Na maior parte da história do Brasil enquanto Brasil, ou seja, enquanto projeto colonial, o indígena apenas foi visto a partir do olhar do Outro: o olhar do colonizador. O olhar que, por sua vez, carregou visões preconceituosas desses povos por séculos, generalizando-os em perspectivas como o do bom selvagem ou como o do incivilizado. Vemos exemplos de uma narrativa contada a partir do olhar colonizador no romantismo brasileiro, em romances como “O Guarani” e “Iracema”, ambos de José de Alencar. A pintura, portanto, subverte a expectativa: o indígena não está sendo visto pelo olhar do Outro, mas sim o Outro é observado a partir do olhar indígena. É uma tentativa de estabelecer que sim, o indígena pode contar uma história, oferecendo seu ponto de vista.

Meu último post por aqui foi sobre o filme Um Homem com uma Câmera, que é o meu filme favorito. Óbvio que quando eu vi a pintura eu, imediatamente, lembrei do filme. O diretor, Dziga Vertov, constrói uma ideia contra a narrativa burguesa, onde seria possível um operário contar uma história sobre a sua própria classe. O operador de câmera, Mikhail Kaufman, anda pela cidade com sua ferramenta de trabalho, uma câmera, documentando a vida urbana dos outros proletários, oferecendo seu ponto de vista.

Nesse sentido, as duas obras evidenciam duas classes marginalizadas segurando a câmera como ato de tomada de poder narrativo: cada um deles pode contar a história sobre si mesmo, evitando o olhar do outro, seja o olhar colonizador no caso do Brasil, seja o olhar burguês no caso da União Soviética. A construção de narrativas a partir de olhares não-dominantes ainda se faz fundamental, seja no cinema, literatura, fotografia, pintura, videogame ou em outras formas artísticas.


Última modificação em 2025-12-14