Cinema é linguagem
Desabafo sobre discussões de cinema

Discutir cinema está mais na moda do que nunca. Afinal, estamos numa época de “revoluções” no cinema: o cinema de super-herói está em crise, Brasil ganhou um Oscar pela primeira vez e está concorrendo de novo, além de maior diversidade de filmes nas salas. Porém, há uma coisa que me incomoda profundamente nessas discussões sobre cinema, ainda mais as que são ancoradas no senso comum: a prevalência do conteúdo sobre a forma.

O cinema americano nos ensinou que um filme bom é um filme que conta uma história boa. Se tiver reviravoltas, muitos personagens, ação e um final fechadinho então é um filme excelente. As histórias complexas são valorizadas sobre as histórias mais simples.

Essa valorização de tramas complexas traz uma ilusão: muitas vezes as pessoas acham que filmes complicados são filmes profundos. Elas acham que assistir a um filme é um exercício de decodificação: o espectador deve entender o que está sendo visto na tela e tudo deve ser explicado para ele. Por exemplo, Oldboy é um filme que, embora seja um filme bom, é constantemente valorizado pelas suas reviravoltas na trama e não pelo o quão bem ele trabalha a linguagem cinematográfica.

Peguemos o exemplo de “Ainda Estou Aqui”: tanto por setores de esquerda e de direita, o filme era discutido do ponto de vista de seu conteúdo. Os comentários eram “esse filme trata de uma história importante”, “a história é muito emocionante” ou “é apenas mais um filme sobre ditadura militar”. A discussão sobre linguagem cinematográfica ficou reservada apenas a alguns críticos de cinema.

Vamos voltar para a escola por um momento. Nas aulas de literatura, você com certeza estudou sobre Machado de Assis, um grande escritor brasileiro, influente e estudado até fora do Brasil. Machado não é um grande escritor porque ele sabia escrever histórias envolventes, complexas, cheias de reviravoltas. Na verdade, o seu livro mais famoso, Dom Casmurro, possui uma história simples e repetida milhares de vezes na cultura brasileira: um cara com medo de ser corno e absurdamente paranoico. Machado só é considerado um escritor genial pela forma como ele escreve. A forma que ele utiliza ironias para criticar a burguesia, as figuras de linguagem, o uso do tempo não-linear, tudo isso que faz parte da própria linguagem literária.

Entende o meu descontentamento com as discussões de cinema? A grande maioria das pessoas não tiveram aula de cinema na escola. As pessoas aprenderam com o cinema americano que um filme é bom se ele conta uma história boa e não se ele consegue utilizar a linguagem do cinema para criar uma narrativa boa.

Chega a ser complicado recomendar filmes “fora da casinha” para as pessoas. Filmes como Amor à flor da Pele de Wong Kar-wai parecem filmes “parados”, pois o foco está nas sensações e não no tema. Este filme é sobre dois vizinhos que descobriram que estavam sendo traídos pelos seus cônjuges. Mas a genialidade está na narrativa: como a linguagem é utilizada pelo diretor para contar a história. A câmera leva a planos demorados e melancólicos, a música se repete marcando um amor que nunca pode acontecer. A câmera mostra close-ups de pequenos toques de mão, mas nunca uma carícia física maior, pois o amor não pode ser realizado. A grandeza do filme está na imersão e na sensação que ele nos causa, algo que só pode ser experienciado através do cinema. Uma descrição da história não basta.

Ora, basta ver outro filme aclamado que eu já cansei de falar aqui no blog: Um Homem com uma Câmera. A princípio, é só um documentário sobre fazer um documentário sobre o cotidiano soviético. A premissa é simples e a maioria das pessoas não desenvolve interesse por conta disso. Mas, ele é considerado um dos maiores documentários de todos os tempos pelo seu uso da linguagem: o filme utiliza ritmo, cortes, planos para demonstrar a cidade de uma lente que nenhum humano tinha visto antes. É uma sinfonia visual que traduz a sensação de viver naquela cidade, através do cinema. Nenhuma sinopse é capaz de traduzir a sensação de assistir ao filme.

Portanto, o que eu quero dizer com tudo isso é que, acima de tudo, cinema é uma linguagem. Ninguém afirma que Luís de Camões ou Machado de Assis são geniais pelas histórias que eles escrevem e sim por quão bem eles sabem utilizar a linguagem da literatura para contar uma história. Da mesma forma, filmes como Um Corpo que Cai, Amor à flor da Pele não são geniais e aclamados pelo seu conteúdo e sim por como os diretores utilizam a linguagem cinematográfica para contar suas histórias.

Um adendo: obviamente, filmes não são somente linguagem. Não estou defendendo um virtuosismo vazio, estou defendendo a construção de uma narrativa boa. A narrativa é boa quando o cineasta consegue utilizar a linguagem cinematográfica para traduzir uma história. Virtuosismo técnico por si só é vazio. Planos sequências são bons não porque são impressionantes, são bons quando eles ajudam a contar a história.


Última modificação em 2026-02-11