Ir ao cinema sozinho
Rituais, anonimato e cinema

Quando eu cheguei na minha cidade atual, foi uma surpresa descobrir que o Sesc tem exibições de filme semanais e gratuitas. Virou uma rotina eu assistir a um filme lá sozinho. Eu comecei a acompanhar o cinema de lá porque fui com uma amiga minha em um mês que estava passando filmes do cinema coreano, foi lá que eu assisti Park Chan-wook e Hong Sang-soo pela primeira vez. Logo depois eu incorporei essas idas na minha rotina.

A inspiração para escrever esse post veio porque eu fiquei muito animado para ir ao Sesc há algumas semanas atrás, uma animação alta até demais para ser considerada “comum”. Foi aí que eu percebi que ir ao cinema sozinho é algo muito especial para mim.

Claro, no Sesc eu tenho um ritual: chego quarenta minutos antes da exibição, pego meu ingresso, vou na cafeteria e peço um queijo coalho com melaço (raramente como isso desde que me mudei para minha cidade atual) ou um picolé de doce de leite, fico sentado em uma mesa esperando o tempo passar e depois entro na sala. Eu digo que esse ritual é tão especial para mim porque é um dos poucos momentos que eu me sinto realmente livre dentro da cidade. Eu não sou um universitário, não tenho que performar socialização, eu sou apenas mais um adulto no meio de tantos outros adultos fazendo suas atividades comuns.

É bom também que não há tantas pessoas da minha idade, geralmente são adolescentes ou pessoas mais velhas, o que diminui mais ainda minha ansiedade social, porque eu viro um zé ninguém. Eu não sou um universitário excluído, possivelmente esquisito, eu só sou um adulto vivendo minha vida normal, é uma experiência maravilhosa.

Também vou no cinema de rua da minha cidade sozinho de vez em quando. Falando da experiência cinematográfica em si, eu acho excelente. Principalmente porque eu fico refletindo muito após um filme, para mim um filme não acaba quando os créditos acabam. Sair acompanhado acaba estragando um pouco essa experiência, ainda mais porque nem sempre eu me sinto preparado para comentar um filme após o seu término, muitas vezes eu prefiro o silêncio. A questão é que muitas vezes o silêncio é constrangedor.

O cinema de rua da minha cidade fica a vinte minutos da minha casa a pé. E isso contribui muito para a experiência, porque são vinte minutos que eu caminho em paz, geralmente escutando música no meu mp3 enquanto eu ainda estou digerindo o filme. Eu chego em casa realizado.

Eu acabei descobrindo, ao longo desses últimos anos, que eu gosto de fato de ir no cinema sozinho, até mais do que acompanhado. É um espaço onde eu posso ser eu mesmo, onde eu posso refletir sobre o filme no meu próprio tempo (digerindo-o lentamente), onde eu posso esquecer um pouco da vida universitária.


Última modificação em 2026-04-26