Quem eu sou
Alguns dramas existenciais

Estou há um tempo sem escrever para o blog, parcialmente porque estou sem ideais, parcialmente porque tenho vergonha de algumas ideias e parcialmente porque estive com preguiça de por algumas ideias em práticas. Nesse meio tempo, eu tive diversas crises de identidade…

A principal delas é a pergunta que sempre vem: quem eu sou? Essa é a que sempre se repete porque eu nunca tive uma resposta adequada para isso. Geralmente, eu sempre fui definido por terceiros ou pela minha “inteligência” ou por ser chamado de “culto”. Agora, com 21 anos, não morando mais com os pais e absurdamente perdido na vida, essa pergunta vem se repetindo na minha cabeça mais do que nunca.

Às vezes, eu tento revisitar as artes que eu gosto numa tentativa desesperada de entender quem eu sou. Seja assistir aos meus filmes favoritos (já assisti a Um Homem com uma Câmera duas vezes este ano, uma vez inclusive quando eu estava em crise depois de chorar), seja jogar os meus jogos favoritos (jogar Mario, Doom e Quake), seja escutar meus músicos favoritos (Tom Jobim) de novo. Infelizmente, esse tipo de coisa não me leva muito longe. Eu sei que eu não sou definido pelas artes que eu gosto, mas eu tento entender se tem algum reflexo meu nelas para ver se eu consigo encontrar algo que diga quem eu sou.

Outra tentativa, essa bem mais humilhante, é a vontade de perguntar aos meus amigos por que eles conversam comigo. Isso não é necessariamente por alguma carência, é só uma tentativa de ver se eu consigo enxergar algo em mim caso seja falado por terceiros. Pode ser que, apesar de todo o esforço que eu faça para camuflar quem eu realmente sou, saiam algumas brechas que as pessoas consigam enxergar e elas apontam para quem eu realmente sou.

Acontece também que muitas vezes eu me sinto inferior aos meus amigos, porque eu sinto que eu sou um péssimo amigo. Muitas vezes eu recuso saídas, eu saio mais cedo ou só sinto que eu não dou o carinho que eles precisam. Quase todo presente que eu recebo eu sinto uma vontade imensa de chorar porque eu sinto que eu não merecia aquilo. O que se passa na minha cabeça é: por que pessoas tão fodas insistem em conversar comigo, quando eu mesmo penso que não faço o suficiente?

Eu sei que eu não sou algo, no sentido de ser algo fixo, e sim que eu sou constante movimento, o que piora tudo. Eu percebo que algumas pessoas que não falam mais comigo ainda utilizam algumas expressões que aprenderam comigo. E, tudo bem, eu também faço isso, eu não vejo problema. A questão mesmo que acontece comigo é o estranhamento, é saber que existe uma versão de mim, mesmo que as pessoas não saibam, que ainda está assombrando por aí. Acontece que nem mesmo tentando olhar para o passado, eu consigo definir quem eu sou de verdade, porque a única coisa que eu consigo enxergar são vários fragmentos.

Eu começo a me perguntar se minhas amizades atuais também irão agir assim no futuro e a resposta é provavelmente sim. É uma previsão e eu já sinto a dor e o estranhamento dessa previsão, por mais que ela não tenha acontecido ainda.

Para piorar tudo, eu descobri recentemente (alguns poucos meses) que sou autista. O que adiciona toda uma questão de masking, que eu provavelmente fiz inconscientemente a minha vida inteira, ainda mais sabendo das condições de ser diagnosticado tardiamente. Provavelmente boa parte das angústias descritas nesse post são influenciadas pelo meu diagnóstico tardio.

Este post não é tão elaborado ou com tom filosófico como os outros, é mais um desabafo que eu estou escrevendo no meio da madrugada. Este foi o grande drama que eu vivi nos últimos meses, principalmente porque eu fiz novas amizades (que gosto bastante delas por sinal) ao mesmo tempo que nos últimos anos me afastei de muitas amizades antigas por ter me mudado e por outros desencontros da vida. Pelo menos, eu também cheguei a aprender algumas coisas novas. Passei os últimos meses imerso em cinema soviético, terminando de assistir a cinematografia de Vertov, Eisenstein, conhecendo o Leonid Gaidai e mais alguns filmes incríveis. Pretendo logo mais escrever sobre isso também.


Última modificação em 2026-04-22